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Domingo, Setembro 11, 2005

MINHA LUANDA

Ah, sim. Evoquei Luanda na hora mais precisa.Delirei ao som dos maracatus encantados.Relembrei um abril despedaçado, de um diretor muito amado. Me vi perdida entre as muralhas de Brennand... Eu postei Alceu, lembrando Ismael, quando ele ainda me era proibido. Recitei Patativa e sua chegada no paraíso. Respeitei o intervalo para flores (dia da mulher) com Daniel Arantes.Estendi a tal "beleza latina cigana" para toda mulher. Conflituosa, me deparei com o conflituoso Mucuripe.O papa morreu e nem me vi triste. Criei cólera perante machismo. Dancei o jongo e lembrei de Oswaldo. Pois, como dizia Cascudo, "Luanda é a terra com os valores emocionais da evocação. Vive isoladamente, como célula independente e mágica de abstração e sonho. (...) Luanda é sempre uma projeção lírica, um apelo à Poesia recordadora, fórmula de compensação ao sofrimento, recurso à saudade viajeira atravessando as águas do mar". Um dia eu volto, Luanda, ou será que você virá até mim?


por Luciana Barbosa ?s 6:28 PM

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Segunda-feira, Maio 02, 2005

VOCÊ SABE O QUE É JONGO?

Uma das mais ricas manifestações da cultura afro-brasileira. Originário dos batuques e danças de roda trazidos do Congo e de Angola pelos negros da nação Bantu, o jongo é uma dança comunitária de origem rural que data da época da escravidão e foi recriada nas primeiras favelas do Rio de Janeiro, como Mangueira, São Carlos e Salgueiro. Hoje em dia, o Grupo Cultural Jongo da Serrinha (uma das mais antigas favelas brasileiras, no bairro de Madureira) é célebre por recriar a tradição Bantu, cujos pontos são considerados a principal influência do samba primitivo.
Diz-se que antigamente só os mais velhos podiam dançar o jongo, pois eram os únicos que conheciam os fundamentos contidos em seus pontos. Nos dias de festa, os jongueiros acendiam uma fogueira e iluminavam o terreiro com tochas. Do outro lado, montavam uma barraca para dançar o «calango», arrasta-pé ao som de sanfona e pandeiro.Os tambores eram postos junto ao fogo, que aquecia os couros, dando-lhes a afinação necessária para ecoar. Durante a noite, a dança era interrompida quantas vezes fossem necessárias para que os tambores, «roucos», fossem novamente aquecidos.
Os tambores do jongo, feitos de um único tronco de árvore escavado, são chamados de caxambu. O de som mais grave é também chamado de tambu, e o de som mais agudo, candongueiro. A dança do jongo é de roda e costuma ser dançada com os pés descalços. Um casal por vez se dirige ao centro, girando no sentido anti-horário e às vezes ensaiando uma umbigada ¿ no jongo, a umbigada é de longe.
A música tematiza situações do cotidiano, cantadas de improviso em relação com pontos tradicionais que são respondidos em coro pelos participantes, numa combinação empolgante de batuque, canto, dança, religiosidade e brincadeira. Pontos de «demanda» e «visaria», muitos deles centenários, além de improvisos e disputas entre os cantadores, compõem o repertório dos jongueiros, que se alternam com os casais no centro da roda formada a partir da disposição dos tambores.



Retirado de http://raizesdatradicao.uol.com.br/


***


Sobre o comentário de Lela:

É, realmente fui mais enérgica em meus últimos textos. Sinto até que extrapolei (usei certos termos não muito delicados) nos textos do dia 29 e 26 de abril. O que explica isso é a vida, que, pouco a pouco, me mostra na prática o que eu só lia em livros ou assistia pela visão distorcida da televisão. Achei seu comentário interessante, Lela. Apareça mais vezes. Abração!

por Luciana Barbosa ?s 2:36 PM

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Sexta-feira, Abril 29, 2005

KID CULTURA
(Oswaldo Montenegro)

Numa tarde de verão em que nevava pra cacete
Eu compus um grande rock, grande como a ponta de um alfinete
Era grande como é grande tudo o que não está à mão
Com total mediocridade eu fiz essa canção
Toda grande obra de arte quase sempre pede um tema
Eu achei um personagem pra falar no meu poema
É o tal Kid Cultura o valentão do nosso Oeste
Que alastrou na nossa vida bem pior que a peste
Ele andava pelos bares arrotando a tal cultura
Dividia a nossa história em linha mole e linha dura
Se alguém o desafiava desferia sem perdão
Nove ou dez palavras chaves e ganhava a discussão
"A incoerência inverossímil é a antropofagia biovilesca, não acham?"
Desfilava em Ipanema o gênio da contra-cultura
E sorria lá de cima: "Ninguém estava à sua altura"
E se alguém não entendeu o filme que ele viu
Explicava o simbolismo: "Aquilo era o Brasil"
Já havia feito yoga, trás-doin transcendental
Não ligava para moda ele era original
Não estudava só fazia pesquisa pelo Brasil
E sacava da garganta nomes eu ninguém viu
Já dizia Marc Dutra no seu livro Franci Delt
Que a normália transcendência é a virtude poroleuti
E o que o Freud não explica eu pesquisei no Afeganistão
Já dizia Rala Putra efe é cold, irmão
Como disse Clifen Housen referanda melecause
Tem um quê de homossexualismo nesse tal de Mickey Mouse
E dizia ser poeta mas não escrevia não
Mas manter sua arte pura sem corrupção
Mas um dia de repente lá no bar apareceu
Alguém que era consistente e o Kid até tremeu
Sacou do copo já gritando: "Ele não entende nada"
Mas o outro não tinha medo e soltou a gargalhada
Kid Cultura quis fugir mas o outro não deixou
Sacou um livro verdadeiro e no Kid jogou
E ao contato com a cultura o nosso Kid estremeceu
Quando um grito se ouviu, Kid Cultura morreu
E o pior da nossa história é que ela não acaba aqui
Isso tudo foi um sonho: Kid Cultura tá solto por aí

***

Bom, o Kid Cultura da música de Oswaldo não conhecia realmente os livros, mas alguns intelectuais podem ser piores que pseudo-intelectuais.
Os pseudo-intelectuais são quase inofensivos, enquanto que os intelectuais são verdadeiras máquinas mortíferas de egocentrismo. São tão donos da verdade que não é difícil ouvi-los dizer: "é verdade, eu pesquisei sobre isso... de acordo com as fontes blá blá blá blá blá... eu tenho a razão... não adianta entrar nessa luta... as estatísticas dizem que isso é utópico".
E eles se trancafiam em suas bibliotecas e comem seus livrinhos. Negam tudo que vá de encontro às suas inteligências colossais.
No meio acadêmico está cheio dessas pragas... Inteligentes, individualistas e sedentários. Conhecem todos os problemas do mundo, mas não estão fazendo nada para tentar resolvê-los.
Não quero me encaixar nessa caricatura. Precisamos da teoria, mas ela tem que vir acompanhada da prática.
Chega de intelectuais insuportáveis. Estamos fartos dessas máquinas infalíveis inúteis de conhecimento.


por Luciana Barbosa ?s 5:47 PM

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Quarta-feira, Abril 27, 2005

ALCEU NA CABEÇA


Caravana
(Geraldo Azevedo e Alceu Valença)

Corra
Não pare
Não pense demais
Repare essas velas no cais
Que a vida é cigana
É caravana
É pedra de gelo ao sol
Degelou teus olhos tão sós
Num mar de água clara



Cavalo de Pau
(Alceu Valença)

De puro éter assoprava o vento
formando ondas pelo milharal
teu pelo claro boneca dourada
meu pelo escuro cavalo de pau

cavalo doido por onde trafegas
depois que eu vim parar na capital
me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo de pau

cavalo doido em sonho me levas
teu nome é tempo, vento, vendaval
me derrubaste como quem me nega
cavalo doido, cavalo de pau


Anunciação
(Alceu Valença)

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais


Rouge carmin
(Alceu Valença)

Meu amor tem um beijo guardado prá mim
E a cor do baton é vermelho carmin
Meu amor tem dez dedos cravados em mim
Que me rasga me arranha e me deixa assim
Assim que eu te vi muito louca
Olhei tua boca e ficamos a fim
A fim de fazer um pecado
A cor do pecado é rouge carmim
E a cor do pecado é rouge carmim
Mas a cor do pecado é rouge carmim
E a cor do pecado é rouge carmim
A cor do pecado é rouge carmim
Mas a cor do pecado é rouge carmim



por Luciana Barbosa ?s 5:19 AM

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Terça-feira, Abril 26, 2005

Nunca havia sentido forte discriminação (por ser mulher) na pele. Acontece que o mundo lá fora é bem mais feio do que a redoma em que eu fui criada. Eu sabia disso. Mas nunca havia sentido isso.
Me bateu uma vontade enorme de ser homem, que além das vantagens naturais (nada de menstruação e o poder de urinar em pé, por exemplo) tem também as vantagens culturais. São justamente essas vantagens culturais que agora estão me deprimindo.
O mundo é dos homens. A mulher não é respeitada!
Com que direito esses Senhores do Mundo nos vêem como meras máquinas acolhedoras de pênis?
Não aspiro ser uma mulher-macho e nem perderei toda minha feminilidade para ganhar a credibilidade desses Senhores do Mundo. Serei eu mesma. Não culparei meu traseiro por ele ser grande (culpo os olhos dos desgraçados que insistem em acompanhá-lo). Não cobrirei o meu decote em busca das migalhas do respeito masculino.
Eu sou mulher. E a minha liberdade não está em fingir que sou homem, mas está em eu me aceitar como mulher. E me orgulhar disso!

Aos filhos da puta que não nos dão o respeito merecido:
FODAM-SE.


por Luciana Barbosa ?s 5:30 AM

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Domingo, Abril 03, 2005

O PAPA FOI UM SANTO?
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Rodrigo Ricúpero
Doutorando em História do Brasil pela USP
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O mundo inteiro acompanhou nas últimas semanas a piora no estado de saúde do papa João Paulo II. Ele faleceu neste sábado, 3 de abril, após longa agonia, explorada pela Igreja Católica com ajuda dos meios de comunicação de todo planeta. O clima de comoção, principalmente entre os cerca de 1 bilhão de católicos no mundo, deve continuar e, no Brasil, o refrão da visita de 1980, ¿nosso povo te abraça¿, será repetido à exaustão. Aos que neste momento sofrem a morte do papa como um dos seus, queremos recordar o papel de João Paulo II na direção da Igreja Católica, abraçando não o povo, mas os ditadores, o imperialismo norte-americano e os setores mais conservadores do clero.

Nas últimas semanas, surgiram, por todos os lados, livros, revistas e artigos biográficos, que, com raras exceções, enaltecem João Paulo II. Ele aparece como lutador pela paz e defensor dos povos oprimidos. Foi chamado de ¿o homem do século¿ ou ainda se diz mesmo que ele ¿mudou o mundo¿!. Desta forma, vai construindo-se um mito em torno ao papa polonês, abrindo caminho, inclusive, para sua canonização, ou seja, para que seja declarado oficialmente como mais um santo da igreja.

Escolhido para ser o líder da Igreja Católica em 1978, o polonês Karol Wojtyla, adotaria o nome de João Paulo II, era o primeiro papa não italiano em séculos. Simbolicamente, pouco depois foi rezar no túmulo do fundador da organização ultra-reacionária Opus Dei, deixando claro sua identidade com o espírito e objetivos do grupo, tais como o anti-comunismo e a defesa de posições conservadores em matéria de comportamento moral, sexual e familiar.

Rapidamente, o papa assumiu uma postura política ativa, utilizando como instrumentos suas viagens pelos vários países, discursos e textos. Coincidentemente, dois anos depois, Ronald Reagan chegaria à Presidência dos EUA, com forte discurso conservador, iniciando um novo período de convergência entre o Vaticano e a Casa Branca, formando o que Richard Allen, presidente do Conselho de Segurança Nacional de Reagan, chamou de ¿a maior aliança secreta dos tempos modernos¿.

A atuação inicial de João Paulo II foi particularmente nos dois pontos-chaves da cena internacional na virada da década 70 para 80: Polônia e Nicarágua. O papa visitou a Polônia em 1979, iniciando uma virada na posição adotada até então pela Igreja, que era o diálogo com o governo stalinista. O Vaticano passou a apoiar abertamente os grupos de oposição. A ação do Papa em conjunto com a CIA, como confirmou recentemente o general Vernon Walters, antigo diretor da CIA, num documentário produzido pela BBC (rede estatal de TV da Inglaterra), tinha como objetivo contribuir moral e financeiramente com os setores do movimento de oposição que defendiam a restauração capitalista contra os que combatiam a burocracia mas que defendiam a propriedade social. Assim, o governo norte-americano, além de trocar informações com o Vaticano, aproveitou as organizações da Igreja Católica para remeter recursos e divulgar sua propaganda em favor do capitalismo.

Na Nicarágua, o ponto alto da política do Vaticano foi a viagem do papa em 1983, quando este condenou a participação de padres no governo da Frente Sandinista e apoiou abertamente a cúpula da Igreja que fazia oposição ao novo regime, inclusive promovendo o arcebispo de Manágua a cardeal. Aqui, novamente o Vaticano associou-se à Casa Branca em uma grande campanha contra os sandinistas, que contou com o enviou de fundos da Agência de Desenvolvimento Internacional, órgão do governo dos EUA, para a oposicionista Arquidiocese de Manágua; com a propaganda feita de dentro dos EUA por organizações como o Instituto sobre Religião e Democracia ou ainda com ações e atos impulsionados diretamente pela Igreja contra medidas do governo nicaragüense, que obtinham o pleno apoio do embaixador norte-americano em Manágua.

Ainda na América Latina, o papado, antes e depois de João Paulo II, apoiou claramente as diversas ditaduras militares. No Chile, um dos grandes aliados do general Pinochet foi o arcebispo Angelo Sodano, núncio apostólico, ou seja, embaixador do Vaticano naquele país. Sodano, até a morte do papa, era a segunda autoridade do Vaticano, ocupando a função de secretário de Estado. A velha amizade com Pinochet levou que o Vaticano solicitasse de imediato a libertação do ditador, quando este esteve detido na Inglaterra, a pedido da Justiça espanhola.

O mesmo ocorreu na Argentina, onde os generais encontraram no núncio dom Pio Laghi um leal parceiro, o que levou que a Associação das Mães da Praça de Maio, que reúne famílias de desaparecidos políticos, a processá-lo junto à Justiça italiana. Ainda neste país recentemente o bispo capelão-mor do exército disse que os defensores do aborto deveriam ser jogados no mar, prática que a ditadura se valeu inúmeras vezes para livrar-se dos presos políticos, tendo recebido total apoio do Vaticano após esta infame declaração.

Até mesmo na escolha dos santos pode-se perceber a relação com as ditaduras. João Paulo II transformou em santo Josemária Escrivá, fundador da Opus Dei (Obra de Deus), organização secreta de extrema-direita, criada na Espanha e intimamente ligada a ditadura franquista. O ¿santo¿ Josemária era conselheiro espiritual do ditador espanhol Franco. O papa João Paulo II também fortaleceu a organização Opus Dei, ao isentá-la da autoridade dos bispos locais, vinculando-a diretamente ao Vaticano.

O re-ordenamento da ordem mundial não alterou a política de proximidade com o governo norte-americano, embora seus discursos sejam recheados de apelos pela paz, o Papa apoiou a primeira guerra contra o Iraque e em nenhum momento condenou ou combateu a segunda. Além disso, sua visita a Cuba em 1998, longe de apoiar o país, tinha como objeto, como ele próprio declarou, produzir os mesmos efeitos que sua visita a Polônia em 1979, ou seja, auxiliar o processo de restauração capitalista.

A proximidade do papado com os poderosos do mundo, contudo, não é exclusividade do período de João Paulo II. Sem voltarmos para épocas mais recuadas da história, podemos lembrar a conivência do Vaticano com o nazismo de Hitler, recentemente objeto de livros e filmes. Nas palavras do papa Pio XII, que dirigia a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, o inimigo a ser combatido era o comunismo: ¿Hitler contra os judeus, é Hitler contra o comunismo¿. Daí não se estranhar que muitos nazistas procurados por crimes de guerra tenham conseguido fugir da Europa com ajuda do Vaticano.

O apoio às ditaduras militares, o anti-comunismo e o combate aberto aos regimes que se opõem ao imperialismo caminham paralelamente a uma luta interna contra todos os setores progressivos dentro da Igreja, favorecendo os setores mais conservadores.

Na América Latina, o grande alvo foi a chamada Teologia da Libertação e os setores da Igreja ligados às lutas populares, acusados de introduzir temas marxistas dentro do catolicismo. Um dos principais mecanismos utilizados foi a Congregação para a doutrina da fé (antigo Santo Ofício da Inquisição), dirigida pelo cardeal Ratzinger, um dos membros mais poderosos do Vaticano. Através do novo Santo Ofício, muitos teólogos que ligados à teologia da Libertação ou que não seguiam a ortodoxia pregada pela Igreja Católica, foram censurados, como o caso de Leonardo Boff, tiveram suas obras banidas ou foram proibidos de continuar ensinando em suas universidades.

Dessa forma, enquanto a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais perdem espaço dentro da Igreja, movimentos como a Renovação Carismática Católica, do qual o Padre Marcelo é o mais conhecido representante, ganham força. A disputa aqui é entre duas concepções. Enquanto os carismáticos valorizam o aspecto espiritual individual em detrimento do social, os setores ligados às comunidades de base, ao se preocuparem com as questões sociais, acabam por intervir na política ao lado dos mais desfavorecidos.

Ainda dentro do contexto de combate aos setores progressistas, o papa João Paulo II nomeou membros mais conservadores do clero para importantes cargos no Vaticano, para os bispados mais importantes ou elevando-os a condição de cardeais, o que, neste caso, facilitaria a eleição de um outro papa reacionário, já que são os cardeais que elegerão o sucessor de João Paulo II.

Paralelamente a suas posições políticas conservadoras, o papa João Paulo II defendeu toda uma série de posições sobre comportamento sexual extremamente reacionárias. Aqui, contudo, mais do que posições pessoais, o papa expressava as posições defendidas pelo conjunto da Igreja Católica.

Nesse ponto novamente percebe-se a afinidade do Vaticano com a Casa Branca, particularmente durante os governos republicanos de Ronald Reagan, de Bush ¿pai¿ e de Bush ¿filho¿. Entre os vários temas, três merecem destaque: a posição da Igreja sobre o aborto, a condenação do uso da camisinha, independentemente do avanço da AIDS, e em relação às uniões ou casamentos entre homossexuais.

Em seu último livro, João Paulo II causou polêmica ao comparar o aborto, atualmente permitido em vários países, com as formas de extermínio praticadas pelos nazistas nos campos de concentração. Na mesma obra acusa as uniões entre homossexuais de serem uma grave violação a lei de Deus! Afinal seriam uma forma alternativa a família tradicional.

Por fim, vale pena lembrar que certos artigos da imprensa procuram mostrar o papa como crítico tanto do socialismo como do capitalismo. Nada mais falso! Para João Paulo II e o Vaticano, o socialismo, de maneira geral, é uma das ¿ideologias do mal¿. Ao passo que as críticas ao capitalismo são de maneira geral pontuais, e, na maior parte das vezes, tratam de questões como a perda dos valores religiosos na sociedade moderna causadas pelo consumismo ou pela nova moral sexual. E mesmo o discurso pela solidariedade mundial não passa de palavras vazias, sem atacar as causas da miséria ou da exploração. Afinal, um dos conselheiros do órgão encarregado de elaborar e difundir a doutrina social da Igreja Católica, a Comissão de Justiça e Paz, é nada mais nada menos do Michel Camdessus, um dos mais importantes membros do FMI.

*Retirado de http://www.pstu.org.br/

por Luciana Barbosa ?s 7:49 PM

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Sábado, Abril 02, 2005

MUCURIPE CONFLITUOSO



O Mucuripe ainda é vivo. Conflituoso, mas vivo. Em meio aos longos prédios, grandes estruturas mortas de concreto e cerâmica, resistem as casas mais simples. São apenas casas de família próximas à praia. Se verticalmente encontramos a ausência de arte nas estruturas modernas, é na horizontal que as poucas casas que restaram embelezam este pedaço de Fortaleza. Aqui, o profano e o religioso se cruzam diariamente. Enquanto uns rezam na Igreja Nossa Senhora da Saúde, outros ocupam as calçadas com suas conversas intermináveis e seus copos de cerveja.
O mar mucuripeano, artificialmente transformado em lagoa, não canta como antes, mas ainda sustenta as jangadas dos homens simples na superfície de sua cinzitude. Aqui, no Mucuripe, a nostalgia de uma cidade semi-morta manifesta-se nitidamente. Enxerga-se o saudosismo nos olhos das pudicas beatas, nas rugas dos velhos (que ainda insistem em sentar na calçada), nos sorrisos amarelos das crianças que sentem saudade do que não puderam viver.
De minha janela eu vejo os vagabundos sentados nos bancos da praça. A ociosidade desses vadios às vezes me irrita. Talvez minha irritação surja do fato de eu não me dar o direito de rir da vida como eles riem.
Foi o ar provinciano do Mucuripe que me rendeu essas reflexões. Sentirei saudade dos ruídos que as festas católicas fazem neste cantinho de mundo. Sentirei saudades das prolongadas esperas nas paradas de ônibus e do barulho infernal que o trânsito produz na avenida.
Nem tudo aqui é beleza, mas com olhos mais atentos enxerga-se a posia complexa que escorre nesse asfalto sujo. Amo a capital cearense, pois aprendi a apreciar a arte desintencionada. Os construtores das casas não ambicionavam tornarem-se artistas quando deram à Fortaleza a irregularidade de seus telhados mal planejados. Mas, vistos de cima, esses telhados tem mais arte que qualquer quadro de Monet.
É com felicidade e tristeza que eu direi adeus ao ponto mais poético de Fortaleza: o Mucuripe. E, em Pernambuco, eu jamais esquecerei das noites belas, inseguras e mudas cearenses. Nem esquecerei dos dias amarelos e vivos, onde quase sempre um sol gigantesco esquentou minha cabeça e me fez refletir sobre a vida.
Não vaiarei este sol colossal!

por Luciana Barbosa ?s 8:34 AM

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Segunda-feira, Março 28, 2005

LEIAM E NÃO SE ARREPENDERÃO:

Direito de Sonhar

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.

Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV.

A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua.

Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro.

A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte".

Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

O texto acima foi escrito por Eduardo Galeano


Não conheço Galeano com deveria conhecer, pois um homem que escreve como ele merece mais da minha atenção. O homem mescla poesia e realidade!



por Luciana Barbosa ?s 7:41 PM

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Segunda-feira, Março 21, 2005

MISTURA LATINA CIGANA

Como Pernambuco é Brasil, estendo essa belíssima música, que me enche tanto de orgulho, às companheiras de outros Estados.

Latina Cigana
(Maracatu Nação Pernambuco)

Pernambucana, ê
Pernambucana, a

PERNAMBUCANA..
Gosto do doce da cana
Mistura latina cigana
Que a natureza criou

E, ô, ê, ô..

Da cor do mar de Candeias,
Mulher madura menina....
Beleza profana divina
Que o cio da terra gerou..

E, ô, ê, ô..

Morena, cheiro de açucena..
Branca, negra, cabocla..
Me deixa perdido no céu
No espaço da tua boca

Ê, ôooooo

PERNAMBUCANA..
Gosto do doce da cana
Do cio da terra saiu
E mundo inteiro aplaudiu
Mistura latina cigana...

Pernambucana, ê
Pernambucana, a


Maracatu Nação Pernambuco


OLODUMARÉ

Pensei que essa letra de Nóbrega causasse efeito apenas em mim, uma afro-brasileira, mas um amigo africano também se comoveu com a profundidade de "Olodumaré":

Vou me embora desta terra
-Olodumaré...
Para outra terra eu vou
-Olodumaré...
Sei que aqui eu sou querido
-Olodumaré...
Mas não sei se lá eu sou
-Olodumaré...
O que eu tenho pra levar
-Olodumaré...
É a saudade desse chão
-Olodumaré...
Minha força, meu batuque
-Olodumaré...
Heranças da minha nação

Ainda me lembro
do terror, da agonia,
como louco eu corria
para poder escapar.
E num porão
de um navio, dia e noite,
fome e sede e o açoite
conheci, posso contar.
Que o destino
quase sempre foi a morte,
muitos só tiveram a sorte
de a mortalha ser o mar.

Na nova terra
novos povos, novas línguas,
pelourinho, dor, à míngua,
nunca mais pude voltar.
E mesmo escravo
nas caldeiras das usinas,
nas senzalas e nas minas
nova raça fiz brotar.
Hoje essa terra
tem meu cheiro, minha dor,
o meu sangue, meu tambor,
minha saga pra lembrar.


AOS MEUS VISITANTES ASSÍDUOS

Repasso a mesma explicação que dei à Bia sobre minha falta de tempo:

Bia, tava doida pra ver esses filmes, mas tenho andado sempre ocupada... Ora com assuntos universitários, ora com assuntos espíritas... Não me resta muito tempo nem mesmo para o canal Brasil. Mas hoje eu assisti "A Usurpadora". Hehe... Contrariei a regra da falta de tempo! Ah... E ainda tenho que estudar para uma prova de legislação, para poder tirar minha carteira. Até meu blogue tá esquecido. Tenho tanto para te contar. Coisas que só se contam pessoalmente. Te amo. Vamos marcar de almoçar no RU?

por Luciana Barbosa ?s 3:08 PM

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Terça-feira, Março 08, 2005

UM INTERVALO PARA FLORES








Respeitando a convenção internacional, que transformou o dia do assassinato das operárias têxteis estadunienses no Dia Internacional da mulher, eu publico essas fotos (de daniel Arantes), que congelam belas expressões femininas em sua mais pura simplicidade.
Hoje o machismo é proibido. Hoje é o dia em que cessam as pancadas e as humilhações. Hoje é o dia em que a Globo certamente nos exaltará. Hoje é o dia em que o chefe, aquele que nos dá um salário inferior ao masculino, nos entregará uma rosa e dirá um belo de um "parabéns".
Se estamos felizes? Ah, muitas de nós, certamente. Outras não. Algumas estarão inconformadas.
Dia das mulheres? Não pedimos UM dia. Queremos apenas respeito, justiça. Não precisamos de um dia de flores... Nós queremos educação, igualdade, saúde, arte, felicidade. Não somos o sexo frágil. Temos força e potencial.
Essa não deveria ser uma data comercial. Não queremos presentes materiais! Rosas só cessam lágrimas provisoriamente.

Dia Internacional da Mulher:
intervalo de um dia na humilhação dos outros 364 dias do ano.



por Luciana Barbosa ?s 2:58 PM

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Segunda-feira, Março 07, 2005

ALAMOA

"Olhei-lhe pra cara
Não tinha nariz
Eram dois buracos
De um chafariz"
(Costa, Pereira da. Folclore pernambucano, p.458)


* * *

Os antigos detentos do presídio da ilha de Fernando de Noronha contavam que nas vésperas de tempestades, quase sempre à meia-noite, aparecia na praia uma mulher lindíssima, muito alta, com longos cabelos louros e completamente nua, dançando ao som do bater das ondas, iluminada pelos relâmpagos. Seus pés pareciam não tocar no chão e sim flutar na areia. Era a alamoa, feminino de alamão [alemão], pois conforme a interpretação popular, mulher loura naquelas paragens só poderia ser alemã.

Sua forma varia. Algumas vezes ela é uma forma luminosa, multicolorida, outras vezes, atrai os homens e os seduz. Aqueles que sucumbem a seus encantos vêem-na se transformar em um esqueleto. Para alguns, é uma alma penada, à procura de um homem forte que a ajude a desenterrar um tesouro escondido.

A pedra do Pico é a sua morada. Em algumas noites, a pedra se fende, abrindo-se uma porta, por onde sai uma luz. A bela alamoa baila, atraindo sua vítima. Aqueles que entram em sua morada, logo constatam com horror a terrível transformação. Seus belos e brilhantes olhos transformam-se em dois buracos e ela vira uma caveira horripilante. Então, a fenda se fecha e o pobre homem nunca mais é visto. Seus gritos de pavor, no entanto, ainda ressoam no local durante muitos dias.

Para Pereira da Costa, trata-se de uma reminiscência do tempo dos holandeses. Luís da Câmara Cascudo a caracteriza como uma convergência de várias lendas de sereias e iaras estrangeiras. O tema da mulher sobrenatural que atrai e seduz os homens, transformando-se a seguir, é comum e recorrente no imaginário popular, sendo, por isso, impossível determinar sua origem com precisão.



Para saber mais sobre a alamoa:

Adolfo, Gustavo. Risos e lágrimas. Recife, 1882

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.251-254

Costa, F. A. Pereira da. Folclore pernambucano; subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco. Recife, Arquivo Público Estadual, 1974, p.26-27

Dantas, Olavo. Sob o céu dos trópicos. Rio de Janeiro, 1938, p.28-29

Matos, Ciríaco do Nascimento. "A saga da alamoa de Fernando de Noronha". Diário da Manhã. Recife, 21 de dezembro de 1976

Melo, Mário. Arquipélago de Fernando de Noronha. Recife, 1916, p.67-68

*Roubado do sítio Jangada Brasil

por Luciana Barbosa ?s 6:17 PM

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Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

CHEGADA DE PATATIVA DO ASSARÉ NO PARAÍSO

(Rubenio Marcelo )



São Pedro veio correndo
E disse pra São José:
-Convoque todos os anjos
Para cantarem com fé
E para o céu enfeitar,
Pois acabou de chegar
Patativa do Assaré!

A notícia espalhou-se
Na edênica amplidão;
Foi grande o alvoroço
Rumo ao principal salão...
Todos na expectativa
De abraçar Patativa
Logo na recepção.

Após a sua entrevista
C'o Senhor do Universo,
O Poeta Patativa,
Em meio a coros diversos,
Foi adentrando no céu,
Com pose de menestrel
E recitando seus versos...

Quem primeiro foi saudá-lo
Foi Padre Ciço Romão,
Que chegou acompanhado
Do velho Frei Damião;
E, numas palavras lindas,
Desejaram boas-vindas
Ao cantador do Sertão.

Patativa, em reverência
Àquela etérea morada,
Foi dizendo um Galope
Em rima improvisada;
Deixando todos faceiros,
Revendo velhos parceiros
Da existência passada.

Havia uma fila imensa
Para saudar o poeta;
E nosso Antônio Gonçalves,
Com fôlego de atleta,
Extravasando seus dotes,
Rimando e criando motes
Com humildade discreta.

De repente, ouviu-se o tom
Duma viola e um refrão
Dizendo: - Seja bem vindo,
Patativa, meu irmão!
Era o grande Zé Limeira,
Também jogral de primeira,
Fazendo a saudação.

Foi grande a emoção
Daqueles dois cantadores;
Limeira e Patativa,
Representantes maiores
Da Cultura Popular,
Ficaram a improvisar
Ante os admiradores.

Depois ouviu-se o gemido
Duma sanfona, no ar...
Era o "Rei do Baião"
Que acabara de chegar;
E relembrando a lida,
Cantaram "Triste Partida",
Gonzaga e o Velho Patá.

Patativa, logo após,
Disse: "Lula, não se vá!
Fique só mais um pouquim,
O povo pode esperá;
Porque eu truxe uns versim,
Bote musga para mim,
Como no tempo de lá!"

Luiz Gonzaga pegou
Aquilo como um troféu;
Jogou logo um tom maior,
Enquanto lia o papel...
E compôs uma canção,
Com sua inspiração
De cantador-menestrel.

E no calor do laurel,
Fez um magistral aviso:
Aquela composição
Musicada d'improviso,
Fará parte do CD
Que lançará - podem crer -
Nas plagas do paraíso.

Em seguida, foi chegando,
Com seu divino embolar,
O Jackson do Pandeiro,
Que logo sem vacilar,
Em sublimação altiva,
Cantou com o Patativa
"Vaca Estrela e Boi Fubá".

Depois veio João do Vale
E o Poeta Azulão;
Aderaldo, em seguida,
Com Catullo da Paixão;
E o Lourival Batista
Com mais cem dúzias de artistas
Foram entrando no salão...

Até o "Maluco Beleza"
Raul Seixas também veio;
Com sua velha guitarra,
Foi chegando sem receio...
Patativa vendo o mito,
Gritou para Rauzito:
- Se apresente, cabra feio!

Os dois se abraçaram
Depois dessa brincadeira;
Raul disse: -"Professor,
Tenho um'idéia altaneira;
Vamos ensaiar a mil
Para formarmos um trio
Com Inácio da Catingueira".

O vate, do outro lado,
De repente aprovou;
Falou: -Vamos ensaiar
Para marcar logo um show.
Eu, Inácio e você,
Misturaremos, pra ver,
O cordel c'o rock and roll.

Assim ficou acertada
Essa grande parceria,
Naquela mansão de luz,
De graça e sabedoria...
Naquele encanto divino,
Patativa, qual menino,
Cantava e versos fazia...

Outro que compareceu
Foi o Pinto do Monteiro,
Com Romano e Zé Pretinho,
Cantando um mote ligeiro.
Silvino Pirauá
Também chegou pra saudar
O ilustre companheiro.

Até os autores clássicos
Chegaram, sem filigrana.
Cazuza, Renato Russo,
Drummond e Mário Quintana
Vieram homenagear
O menestrel popular
Lá da Serra de Santana.

William Shakespeare
Com Victor Hugo e Rimbaud;
Molière e La Fontaine,
Com Stendhal e Saul Bellow,
Também fizeram questão
De apertarem a mão
Do matuto Cantador.

Avistando essa turma,
Nosso bardo camponês
Disse: "Quero avisá,
Não falo ingrês nem francês;
Pois trabaiando na roça
E vivendo nu'a paioça,
Só aprendi cearês!".

Claro qu'estava brincando
O cantador surreal;
Pois todos se compreendem
No Reino Celestial;
Naquela grã dimensão,
Não há qualquer distinção:
O Verbo é universal...

Dum salão do outro lado,
Chegava Elis Regina;
Dolores Duran e Clara
Com Elizeth, a Divina.
Aí o vate exclamou:
- Ainda bem que chegou
A bancada feminina!".

Ness'instante Clementina
Com mais de cem cirandeiras
Entraram, com Izaurinha
E Dalva de Oliveira;
Em meio a essa ciranda,
Chegou a Carmem Miranda
Cantando Mulher rendeira.

Patativa apreciava
Cada apresentação...
Todo céu o exaltava
Com muita admiração.
Até Elvis e Sinatra
Com Ravel e u'a sonata
Fizeram sua saudação.

Assim foi continuando
Aquela festa celeste...
Um, chegava e cantava;
Outro, lembrava o Nordeste;
O outro, qual alvo e a seta,
Glosava com o poeta,
Com maestria inconteste.

Somente após quatro noites
E quatro dias "no ar",
Em festa, após sua chegada,
Direto do Ceará,
Patativa do Assaré,
Ovacionado de pé,
Foi saindo, devagar...

Em cada lado do vate,
Um anjo a lhe guiar...
Assim, na senda do Éden,
O cantador-avatar,
Altivo e em passo lento,
Num transcendente aposento,
Entrou e foi descansar...

Como sei desses detalhes?!
- Você deve perguntar -
(... Se ainda não parti;
Se eu não estava lá...).
Como, assim, com precisão,
Falo d'outra dimensão?!
- Você pode até pensar -

Certo! Lá eu não estava,
Mas não falo aqui ao léu;
Pois o meu Anjo-da-guarda
É confidente e fiel:
Dar-me sempre inspiração,
Fala ao meu coração
E traz notícias do céu...

Entretanto, aquele que
Não tiver botando fé,
Pode checar minha história,
Pode constatar até:
Providencie um papel,
Mande uma carta pro céu
E pergunte a São Tomé.





Dois Quadros

(Patativa)

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.


A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.


Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.


O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.


Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.


Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.


De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.


Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.


E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.


Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.


Sinopse de Patativa

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909, na Serra de Santana, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha e com ela teve nasceram nove filhos. Publicou "Inspiração Nordestina", em 1956. "Cantos de Patativa", em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel.

por Luciana Barbosa ?s 8:22 PM

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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

Comecei a escrever neste blogue já faz um bom tempo. Já tive muitos templates, três endereços... Durante esse tempo eu só quis uma coisa: que alguém entrasse aqui e se interessasse pelo que escrevo.Talvez alguém tenha se interessado, talvez não. Mas esse é o meu espaço público, aqui exponho o que aprecio. Andei lendo meus arquivos e ri dos meus textos passados... Saudosismo? Talvez. Mas não faz mal lembrar do tempo em que o Pipoca Latina ainda estava no ar, das minhas poesias loucas publicadas, dos erros de meu HTML ruim...


Entre sangue e linho

(Luciana Barbosa)

Como é difícil
Crer no amor
E não chorar
Os pés inchados
Do caminho

Como é impossível
Sentir a dor
E negar
Aos olhos
A lubrificação
Que lava o corpo
E afoga a alma

É inebriar
E embebedar
A flor
Que enrolamos
Em pergaminhos
Burocracias
E máscaras
Foscas

E o vento
Forte
Que levou
O amor
O trouxe de volta
Dorido
Entre sangue
E linho




por Luciana Barbosa ?s 3:54 PM

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Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

A CHAVE NA PORTA

Lygia Fagundes Telles


A chuva fina. E os carros na furiosa descida pela ladeira, nenhum táxi? A noite tão escura. E aquela árvore solitária lá no fim da rua, podia me abrigar debaixo da folhagem mas onde a folhagem? Assim na distância era visível apenas o tronco com os fios das pequeninas luzes acesas, subindo em espiral na decoração natalina. Uma decoração meio sinistra, pensei. E descobri, essa visão lembrava uma chapa radiográfica revelando apenas o esqueleto da árvore, ah! tivesse ela braços e mãos e seria bem capaz de arrancar e atirar longe aqueles fios que deviam dar choques assim molhados.

-Quer condução, menina?

Recuei depressa quando o carro arrefeceu a marcha e parou na minha frente, ele disse menina? O tom me pareceu familiar. Inclinei-me para ver o motorista, um homem grisalho, de terno e gravata, o cachimbo aceso no canto da boca. Mas espera, esse não era o Sininho? Ah! é claro, o próprio Sininho, um antigo colega da Faculdade, o simpático Sininho! Tinha o apelido de Sino porque estava sempre anunciando alguma novidade. Era burguês mas dizia-se anarquista.

-Sininho, é você!

Ele abriu a porta e o sorriso branquíssimo, de dentinhos separados.

- Um milagre, eu disse enquanto afundava no banco com a bolsa e os pequenos pacotes. Como conseguiu me reconhecer nesta treva?

- Estes faróis são poderosos. E olha que já lá vão quarenta anos, menina. Quarenta anos de formatura! Aspirei com prazer a fumaça do cachimbo e que se misturava ao seu próprio perfume, alfazema? E não parecia ter envelhecido muito, os cabelos estavam grisalhos e a face pálida estava vincada mas o sorriso muito claro não era o mesmo? E me chamava de menina, no mesmo tom daqueles tempos. Acendi um cigarro e estendi confortavelmente as pernas, mas espera, esse carrão antiquado não era o famoso Jaguar que gostava de exibir de vez em quando?

- O próprio.

Fiquei olhando o belo painel com o pequeno relógio verde embutido na madeira clara.

- Você era rico e nós éramos pobres. E ainda por cima a gente lia Dostoievski.

- Humilhados e ofendidos!

Rimos gostosamente, não era mesmo uma coisa extraordinária? Esse encontro inesperado depois de tanto tempo. E em plena noite de Natal. Contei que voltava de uma reunião de amigos, quis sair furtivamente e para não perturbar inventei que tinha condução. Quando começou a chuva.

-Acho essas festas tão deprimentes, eu disse.

Ele então voltou-se para me ver melhor. Dei-lhe o meu endereço. No farol da esquina ele voltou a me olhar. Passou de leve a mão na minha cabeça mas não disse nada. Guiava como sempre, com cuidado e sem a menor pressa. Contou que voltava também de uma reunião, um pequeno jantar com colegas mas acrescentou logo, eram de outra turma. Tentei vê-lo através do pequeno espelho entortado, mas não era incrível? Eu me sentir assim com a mesma idade daquela estudante da Academia. Outra vez inteira? Inteira. E também ele com o seu eterno carro, meu Deus! na noite escura tudo parecia ainda igual ou quase. Ou quase, pensei ao ouvir sua voz um tanto enfraquecida, rateando como se viesse de alguma pilha gasta. Mas resistindo.

- Quarenta anos como se fossem quarenta dias, ele disse. Você usava uma boina.

- Sininho, você vai achar isso estranho mas tive há pouco a impressão de ter recuperado a juventude. Sem ansiedade, ô! que difícil e que fácil ficar jovem outra vez.

Ele reacendeu o cachimbo, riu baixinho e comentou, ainda bem que não havia testemunhas dessa conversa. A voz ficou mais forte quando recomeçou a falar em meio das pausas, tinha asma? Contou que depois da formatura foi estudar na Inglaterra. Onde acabou se casando com uma colega da universidade e continuaria casado se ela não tivesse inventado de se casar com outro. Então ele matriculou o filho num colégio, tiveram um filho. E em plena depressão ainda passou por aquela estação no inferno, quando teve uma ligação com uma mulher casada. Um amor tão atormentado, tão louco, ele acrescentou. Vivemos juntos algum tempo, ela também me amava mas acabou voltando para o marido que não era marido, descobri mais tarde, era o próprio pai.

- O pai?!

- Um atroz amor de perdição. Fiquei destrambelhado, desandei a beber e sem outra saída aceitei o que me apareceu, fui lecionar numa pequena cidade afastada de Londres. Um lugar tão modesto mas deslumbrante. Deslumbrante, ele repetiu depois de um breve acesso de tosse. Nos fins de semana viajava para visitar o filho mas logo voltava tão ansioso. Fiquei muito amigo de um abade velhíssimo, Dom Matheus. Foi ele que me deu a mão. Conversávamos tanto nas nossas andanças pelo vasto campo nas redondezas do mosteiro. Recomecei minhas leituras quando fui morar no mosteiro e lecionar numa escola fundada pelos religiosos, meus alunos eram camponeses.

- Você não era ateu?

- Ateu? Era apenas um ser completamente confuso, enredado em teias que me tapavam os olhos, os ouvidos... Fiquei por demais infeliz com o fim do meu casamento e não me dei conta disso. E logo em seguida aquele amor que foi só atormentação. Sofrimento. Aos poucos, na nova vida tão simples em meio da natureza eu fui encontrando algumas respostas, eram tantas as minhas dúvidas. Mas o que eu estou fazendo aqui?! me perguntava. Que sentido tem tudo isto? Ficava muito em contato com os bichos, bois. Carneiros. Fui então aprendendo um jogo que não conhecia, o da paciência. E nesse aprendizado acabei por descobrir... (fez uma pausa) por descobrir...

Saímos de uma rua calma para entrar numa travessa agitada, quase não entendia o que ele estava dizendo, foi o equilíbrio interior que descobriu ou teria falado em Deus?

- Depois do enterro de Dom Matheus, despedi-me dos meus amigos, fui buscar meu filho que já estava esquecendo a língua e voltei para o Brasil, a gente sempre volta. Voltei e fui morar sabe onde? Naquela antiga casa da rua São Salvador, você esteve lá numa festa, lembra?

- Mas como podia esquecer? Uma casa de tijolinhos vermelhos, a noite estava fria e vocês acenderam a lareira, fiquei tão fascinada olhando as labaredas. Me lembro que quando atravessei o jardim passei por um pé de magnólia todo florido, prendi uma flor no cabelo e foi um sucesso! Ah, Sininho, voltou para a mesma casa e este mesmo carro...

Ele inclinou-se para ler a tabuleta da rua. Empertigou-se satisfeito (estava no caminho certo) e disse que os do signo de Virgem eram desse jeito mesmo, conservadores nos hábitos assim no feitio dos gatos que simulam um caráter errante mas são comodistas, voltam sempre aos mesmos lugares. Até os anarquistas, acrescentou zombeteiro em meio de uma baforada.

Tinha parado de chover. Apontei-lhe o edifício e nos despedimos rapidamente porque a fila dos carros já engrossava atrás. Quis dizer-lhe como esse encontro me deixou desanuviada mas ele devia estar sabendo, eu não precisava mais falar. Entregou-me os pacotes. Beijei sua face em meio da fumaça azul. Ou azul era a névoa?

Quando subia a escada do edifício, dei por falta da bolsa e lembrei que ela tinha caído no chão do carro numa curva mais fechada. Voltei-me. Espera! cheguei a dizer. E o Jaguar já seguia adiante. Deixei os pacotes no degrau e fiquei ali de braços pendidos: dentro da bolsa estava a chave da porta, eu não podia entrar. Através do vidro da sua concha, o porteiro me observava. E me lembrei de repente, rua São Salvador! Apontei para o porteiro os meus pacotes no chão e corri para o táxi que acabava de estacionar.

- É aqui! Quase gritei assim que vi o bangalô dos tijolinhos. Antes de apertar a campainha, fiquei olhando a casa ainda iluminada. Não consegui ver a garagem lá no fundo, mergulhada na sombra mas vislumbrei o pé de magnólia, sem as flores mas firme no meio do gramado. Uma velhota de uniforme veio vindo pela alameda e antes mesmo que ela fizesse perguntas, já fui me desculpando, lamentava incomodar assim tarde da noite mas o problema é que tinha esquecido a bolsa no carro do patrão, um carro prateado, devia ter entrado há pouco. Ele me deu carona e nessa bolsa estava a minha chave. Será que ela podia?...

A mulher me examinou com o olhar severo. Mas que história era essa se o patrão nem tinha saído e já estava até se recolhendo com a mulher e os gêmeos? Carro prateado? Como esqueci a bolsa num carro prateado se na garagem estavam apenas os carros de sempre, o bege e o preto?

- Decerto a senhora errou a casa, dona, ela disse e escondeu a boca irônica na gola do uniforme. Em noite de tanta festa a gente faz mesmo confusão...

Tentei aplacar com as mãos os cabelos que o vento desgrenhou.

- Espera, como é o nome do seu patrão?

- Doutor Glicério, ora. Doutor Glicério Júnior.

- Então é o pai dele que estou procurando, estudamos juntos. Mora nesta rua, um senhor grisalho, guiava um Jaguar prateado...

A mulher recuou fazendo o sinal-da-cruz:

- Mas esse daí morreu faz tempo, meu Deus! É o pai do meu patrão mas ele já morreu, fui até no enterro... Ele já morreu!

Fechei o casaco e fiquei ouvindo minha voz meio desafinada a se enrolar nas desculpas, tinha razão, as casas desse bairro eram muito parecidas, Devo ter me enganado, é evidente, fui repetindo enquanto ia recuando até o táxi que me esperava.

O motorista tinha o rádio ligado numa música sacra. Pedi-lhe que voltasse para o ponto.

Já estava na escada do edifício quando o porteiro veio ao meu encontro para avisar que um senhor tinha vindo devolver a minha bolsa:

- Não é esta?

Fiz que sim com a cabeça. Quando consegui falar foi para dizer, Ah! que bom. Abri a bolsa e nela afundei a mão mas alguma coisa me picou o dedo. Fiz nova tentativa e dessa vez trouxe um pequeno botão de rosa, um botão vermelho enredado na correntinha do chaveiro. Na extremidade do cabo curto, o espinho. Pedi ao porteiro que depois levasse os pacotes e subi no elevador.

Quando abri a porta do apartamento tive o vago sentimento de que estava abrindo uma outra porta, qual? Uma porta que eu não sabia onde ia dar mas isso agora não tinha importância. Nenhuma importância, pensei e fiquei olhando o perfil da chave na palma da minha mão. Deixei-a na fechadura e fui mergulhar o botão no copo d'água. Agora desabrocha! pedi e toquei de leve na corola vermelha.

Debrucei-me na janela. Lá embaixo na rua, a pequena árvore (parecida com a outra) tinha a mesma decoração das luzes em espiral pelo tronco enegrecido. Mas não era mais a visão sinistra da radiografia revelando na névoa o esqueleto da árvore, ao contrário, o espiralado fio das pequeninas luzes me fez pensar no sorriso dele, luminoso de tão branco.


Texto extraído do livro "Invenção e Memória", Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2000, pág. 89.

*Extraído do sítio Releituras

por Luciana Barbosa ?s 7:02 PM

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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

O OUTRO LADO DA RUA


Do outro lado da rua circulam rostos desconhecidos, com seus próprios problemas. Do outro lado da rua existem vidas indiferentes às suas. É isso que o primeiro trabalho como diretor de Marcos Bernstein vem mostrar: o que se esconde por trás de uma feição estranha.
Além de retratar bem a questão "cada cabeça é um mundo", o filme ainda trata da problemática vivida por nossos idosos: o mundo de hoje não valoriza a experiência e a sabedoria da terceira idade (ou "melhor idade", como muitos preferem), colocando os mais velhos como um peso para o estado. Sem espaço para produzir, muitos são os que se auto-discriminam. Muitos são os que procuram ser úteis.
Regina, interpretada por Fernanda Montenegro, tenta matar a solidão denunciando pequenos delitos à polícia. Ela busca nisso a razão de viver. É na terceira idade que muitos sonhos morrem, que objetivos caem por terra. A personagem se concentra nesses trabalhos, buscando a função de sua existência.
O mérito do filme é dar sensualidade à personagens idosos. É criar um romance envolvente entre duas pessoas que não tem mais a idade padrão da beleza que a mídia nos passa.
Se nossa sociedade não enxergasse os mais velhos como seres semi-inúteis, esse seria apenas mais um filme de amor.

Ficha Técnica

Título Original: O Outro Lado da Rua
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2004
Estúdio: Pássaro Films, Columbia TriStar do Brasil e Neanderthal MB Cinema
Distribuição: Columbia TriStar do Brasil
Direção: Marcos Bernstein
Roteiro: Marcos Bernstein e Melanie Dimantas
Produção: Marcos Bernstein e Kátia Machado
Música: Guilherme Bernstein Seixas
Fotografia: Toca Seabra
Figurino: Cristina Kangussu
Edição: Marcelo Moraes

Elenco

Fernanda Montenegro (Regina); Raul Cortez (Camargo); Luis Carlos Persy (Alcides); Laura Cardoso (Leonor)

Sinopse

Para se refugiar da solidão, Regina, uma aposentada de 65 anos, procura pequenos delitos para denunciar à polícia. Uma noite, xeretando o prédio do outro lado da rua, ela acredita ter presenciado um assassinato. Quando a polícia declara ter ocorrido uma morte natural, Regina resolve investigar por conta própria e acaba se envolvendo com o suposto assassino, Camargo, numa relação tardia e cheia de contradições, em que os dois irão reavaliar suas vidas de um modo que nunca poderiam imaginar.

Nas locadoras. Assistam.


por Luciana Barbosa ?s 8:58 PM

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Sábado, Fevereiro 12, 2005

FRANCISCO DE PAULA COIMBRA DE ALMEIDA BRENNAND


Brennand nasceu em 11 de junho de 1927, no Recife, Pernambuco. Após concluir secundário, desistiu de ingressar na Faculdade de Direito e começou a estudar pintura. Conquistou o 1º Prêmio no Salão de Pintura do Museu do Estado de Pernambuco, em 1947 e 1948. Foi a Paris, onde freqüentou o atelier de André Lothe e Fernand Léger. Viajou à Bélgica, à Suíça, a Portugal e à Espanha. Em Barcelona, a arquitetura e as esculturas de Gaudí o impressionaram tanto que acabaram influenciando sua obra futura. Em 1953, na Umbria, Itália, fez estágio numa fábrica de faiança para aperfeiçoar o seu conhecimento na arte cerâmica.

Quando retornou ao Brasil, começou a trabalhar intensamente, realizando exposições de pintura e cerâmica em vários museus e galerias de todo o País. Executou murais em edifícios no Recife e no exterior. Em 1971, começou a reformar uma velha fábrica de tijolos e telhas fundada pelo seu pai, com cerca de 10.000m2 de área coberta, transformando-a num espaço místico e mágico que até hoje é recriado pela sua inquietação de artista.

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Cerâmicas, telas, desenhos, sangüíneas, monotipias e gravuras compõem um grande painel de arte de diferentes épocas, traduzindo a visão particular do artista.

A preocupação constante de Brennand com a pesquisa de materiais, a combinação das argilas, o manuseio, a queima e a pintura resgatou a beleza da obra cerâmica, transformando-o num dos principais representantes contemporâneos desta arte.

Retirado de http://www.brennand.com.br/

Não me sinto suficientemente capaz de elaborar uma crítica sobre seu trabalho. Só digo o que senti, o que vi. E me entorpeci com a beleza que as mãos desse homem criam. Sinto-me na obrigação de dizer isso ao mundo (e, sobretudo, aos pernambucanos que ainda não foram): visitem o ateliê!!

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por Luciana Barbosa ?s 10:19 AM

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Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

Achei um texto perfeito...

VOCÊ REALMENTE SABE O QUE É FORRÓ?

por Zé da Flauta*

Há quem queira acreditar que a palavra forró vem do inglês "for all" (para todos). Tudo bem, quem quiser acreditar que acredite, mas pra mim isso é conversa pra boi dormir. Só falta dizer que foram os ingleses que inventaram o forró.

Quando eles chegaram ao Brasil, com a Great Western, para construir estradas de ferro, no início do século XVIII, o forrobodó já existia, assim como o pagode, o samba e o arrasta-pé - que eram expressões para designar as festas populares movidas à música, dança e aguardente. O forrobodó, por ser uma palavra nascida no Nordeste, foi que deu origem à palavra forró. O primeiro registro data de 1733, num jornal chamado O Mefistófolis (o satanás), no número 15: "Parabéns ao Dr. Artur pelo grande forró realizado em sua casa..." .

A construção das estradas de ferro no Nordeste deu origem, também, a algumas palavras do nosso vocabulário como baitola, que vem de bitola; sulipa ("dei uma sulipa nele"), vem de sliper (dormente) e algumas outras que não me recordo agora.

O forró também não é um gênero de música, como muitos acham. Se observarmos um disco de forró, por exemplo, vamos encontrar vários gêneros musicais como côco, xote, xaxado, marchinhas, baião etc. Forró é o coletivo da musicalidade popular do nordestino, a junção da música que vem da sanfona, da zabumba e do triângulo, originalmente, com a cachaça e a dança. Se você diz: "vai ter forró lá em casa", todo mundo vai ficar sabendo que a festa vai ser legal.


Vários artistas fizeram e fazem sucesso cantando e tocando essa música alegre e contagiante: Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Almira Castilho, Marinês e sua Gente, Trio Nordestino, Jacinto Silva, Toinho de Alagoas, Biliu de Campina, Edmílson do Pífano, Dominguinhos, Cascabulho, Elba Ramalho etc. E vão surgir muitos outros, pois o forró é uma música verdadeira, que fica.

Entra moda, sai moda e o forró tá lá (não confundir com o forró brega que vem do Ceará como Mastruz com Leite, Cavalo de Pau e outras do gênero - que só tem o mérito de empregar vários músicos, bailarinos e técnicos num show de puro entretenimento).

Pra mim, o forró mais gostoso de se ouvir é o pé-de-serra instrumental; cada vez mais raro, pois nos lugares aonde chegava para fazer shows Luiz Gonzaga era muito procurado por sanfoneiros os quais, pra mostrar serviço, tocavam Tico-Tico no Fubá, Brasileirinho e outras similares, cheias de notas e de difícil execução. Seu Luiz olhava pra eles e dizia: "Sanfoneiro que não canta, não ganha dinheiro nem mulher". Essa postura influenciou muitos músicos bons. Dominguinhos é um exemplo. Pra mim isso é errado, pois esses instrumentistas tocam bem, mas cantam mal.

Por outro lado, há aqueles que ainda dão mais ênfase ao forró instrumental quando gravam um disco. É o caso do grande sanfoneiro Duda da Passira. É comum nos discos de Duda encontrar apenas uma música cantada (normalmente, a última); todas as outras são instrumentais. Quando produzi o disco de Edmílson do Pífano, tive o cuidado de não o deixar cantar. Minha intenção era mostrar ao público a sua verdadeira arte: o dom de tocar aquele canudinho de bambu.

Grande parte da sociedade ainda não assimilou o forró. Acham que é música de pobre, de gentinha, que sanfona é instrumento de cego e coisas assim. Porém, não sabem o que estão perdendo. O forró é a dança mais sensual que já vi em minha vida. Aquele bate-coxa enlouquece qualquer um; a música é alegre, ritmada e contagiante.

* Zé da Flauta é músico, produtor e coordenador musical da Fundação de Cultura da Cidade do Recife

fonte: site manguenius



Acho que o texto acima dispensa meus comentários, mas não os seus. Comentem.

por Luciana Barbosa ?s 11:43 AM

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Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

RELEMBRANDO ABRIL

Eu queria republicar um antigo post meu sobre Abril Despedaçado, mas vasculhei todos os arquivos e não encontrei o danado. Inspirando-me nessa minha tentativa, escreverei um pouco sobre um dos melhores filmes de todos os tempos.

A linguagem do filme é poética dos pés à cabeça. O filme é denso, sufocante. A fotografia é fantástica. Salles retratou a realidade da forma mais sensível que poderia ser alcançada.
Tem um elenco muito bem encaixado em suas funções. José Dumont, representando um homem áspero e de idéias secas, desenvolveu majestosamente seu trabalho. Rodrigo Santoro emociona com seu choro sofrido... Ravi, nosso Pacu, nos leva além das lágrimas, pois nos encaminha à mais profunda reflexão. Os circenses também estão fantásticos (Luiz Carlos Vasconcelos e Flávia Marco Antônio). Flávia soube dar magia à Clara... Uma sensualidade cigana que envolveu Tonho e o público.
Abril Despedaçado tem a tristeza terna do mar. A beleza arrancada da terra seca... O livro de Pacu simboliza a mais ingênua liberdade já filmada.

Salles, eu te amo.



por Luciana Barbosa ?s 10:03 AM

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Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

TEM GENTE QUE PENSA QUE ELE É ALCEU VALENÇA


Moraes Moreira, no DVD de "O Grande Encontro", canta um trecho de uma música muito fofa:

"Pernambuco é Brasil"

Tem gente, tem gente que pensa
Que eu sou o Alceu Valença
Também já aconteceu
De pensarem que o Alceu era eu
Como é que pode?
Que confusão
Eu uso bigode e ele não
Porém contudo
Lhe dou razão
Somos dois da mesma geração
Confesso aqui que não ligo
Se trata de um grande amigo
Poeta e cidadão
Por isso nunca me avexo
E até perdôo o vexame
De pernambucano me chame

Já sei
é pelo que eu escrevo
Por que gosto muito de frevo
De maracatu

Mostrando o que a Bahia tem
Eu sou um baiano a mil
Pernambucano também
Por que Pernambuco é Brasil

Uma banda de frevo elé-elé-elé-elétrica
Para poder voar no ar no ar
nas asas da América...

A música é muito fofa e acaba dissipando um pouco da espessa cortina que há entre Bahia e Pernambuco. Perguntas como: "Qual o melhor carnaval?" são quentes nessas rixas. Confesso que já antipatizei muitos irmãos baianos. Mais pela invasão cultural do que por qualquer outra coisa. É para provar que Moraes Moreira é realmente um bom pernambucano-baiano que essa música foi composta. E vale lembrar que no trabalho "Moraes Moreira - Acústico MTV" também há mais uma perrnambucanidade: "Vassourinhas".



Moraes no carnaval de Recife.

por Luciana Barbosa ?s 11:30 PM

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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

MAS NÃO SE ESQUEÇA DO LUAR DE LUANDA...

(...)

Luanda é a terra com os valores emocionais da evocação. Vive isoladamente, como célula independente e mágica de abstração e sonho. (...) Luanda é sempre uma projeção lírica, um apelo à Poesia recordadora, fórmula de compensação ao sofrimento, recurso à saudade viajeira atravessando as águas do mar.

Luís da Câmara Cascudo (em Made in Africa, pp 93-98)




Andei evocando Luanda...
Existe, em mim, mais que a pele negra, pois meu coração é mais negro do que é possível imaginar. Minh'alma é negra. Quando escuto as batidas do maracatu, danço, relembrando meus ancestrais. Hoje, aprecio como nunca a beleza e a cultura negra.
Que os Príncipes Negros, embelezadores do mundo, continuem com sua ginga e sua sensualidade. Que continuem plantando as sementes que brotam em nossa imaginação...


Maracatu (poema)

Ascenso Ferreira

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás...

- Loanda, Loanda, aonde estás?
Loanda, Loanda, aonde estás?

As luas crescentes
De espelhos luzentes,
Colares e pentes,
Queixares e dentes
De maracajás...

- Loanda, Loanda, aonde estás?
Loanda, Loanda, aonde estás?

A balsa do rio
Cai no corrupio
Faz passo macio,
Mas toma desvio
Que nunca sonhou...

- Loanda, Loanda, aonde estou?
Loanda, Loanda, aonde estou?


por Luciana Barbosa ?s 9:29 PM

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